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Experiências em Ensino de Ciências – V2(2), pp. 01-10, 2007
OS PLANETAS DO SISTEMA SOLAR EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS DA
QUINTA SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL
The solar system’s planets in didactic science books of the fifth grade of fundamental school
Micaías Andrade Rodrigues [[email protected]]
Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Educação, Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino, Campus Universitário,
Cidade Universitária, Recife – PE/BR CEP: 50.670-901
Resumo
A Astronomia é uma ciência muito antiga e muito dinâmica. Mudanças como a de número de
planetas do nosso sistema Solar (IAU, 2006) têm ocorrido devido ao enorme avanço
tecnológico dos telescópios, sondas e satélites, sendo necessárias definições cada vez mais
precisas. Neste trabalho foi feita uma análise de 23 livros didáticos de Ciências da quinta série
do ensino fundamental (sexto ano) buscando identificar se os mesmos tratam sobre o Sistema
Solar, especificamente sobre os planetas como é proposto pelo PCN (Brasil, 1998). Os
resultados obtidos demonstram que eles têm muito que melhorar, pois, compreendendo mais
os planetas, em suas diversas características, ocorrerá uma maior valorização do nosso próprio
planeta, visto que torna-se evidente o quanto nosso planeta é pequeno e que não existe outro
lugar no Sistema Solar em que possa haver desenvolvimento de vida.
Palavras-chave: Planetas, Sistema Solar, livros didáticos, astronomia.
Abstract
Astronomy is a very old and dynamic science. Changes as number of planets of our Solar
system (IAU, 2006) have occurred due to the enormous technological advance which the
telescopes, spacecrafts and satellites, being necessary more and more precise definitions. In
this paper, an analysis of 23 didactic Science books of the fifth grade of fundamental school
(sixth year) was made trying to identify if they cover the Solar System, specifically about
planets as it is considered by the PCN (Brasil, 1998). The results demonstrate they have a lot
to improve, a better understanding of the planets, in their diverse characteristics, will lead to a
bigger valorization of our own planet, since it is evident how small our planet is and there is
not another place on the Solar System with life development.
Keywords: Planets, Solar System, didactic books, astronomy.
Introdução
Há muito tempo que o céu chama a atenção dos homens. O fascínio pelos fenômenos
celestes levou os seres humanos a especular e desenvolver idéias astronômicas desde a
Antigüidade. Há registros históricos dessas atividades há cerca de 7000 anos na China, na
Babilônia e no Egito, para aperfeiçoar medidas de tempo e por outras razões práticas e
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religiosas (Brasil, 1998). Verdet (1991) comenta bem sobre a evolução da astronomia e de
como a mesma é uma ciência viva, em constante evolução, com registros desde os pastores da
Caldéia, passando pelos babilônios, egípcios, gregos (pré e pós-socráticos), chegando a
Copérnico, Kepler, Tycho Brahe, Newton e destes a Lagrange e Laplace até os dias de hoje,
sempre sendo modificada, corrigida e atualizada.
A astronomia tem sido muito discutida, havendo inúmeros trabalhos relacionados
com o tema em vários congressos científicos sobre educação, ciências etc. Tópicos relativos à
astronomia são ministrados tanto em ciências, como em geografia ou em física e várias
publicações de divulgação têm sido feitas no intuito de popularizá-la, especialmente para as
crianças. Revistas como Ciência Hoje das Crianças e livros como o Manual do Espaço do
Astronauta (Maurício de Sousa Produções, 2001) e A Física do Parque: ciência, história e
brinquedos (Mendes & Lins de Barros, 1997) têm abordado assuntos como as estrelas, os
planetas do sistema solar, falando sobre algumas curiosidades, tais como: a construção do
calendário pelos povos antigos, um pouco de história e explicações de como construir alguns
instrumentos, sobretudo, o gnômon e o relógio de Sol.
Atualmente, o céu passou a ser novamente o palco de grandes discussões, pois o
Sistema Solar, que desde 1930 (ano da descoberta de Plutão) era considerado como tendo
nove planetas, poderia ter o seu número ampliado para doze planetas, com a inserção de Ceres
(do cinturão de asteróides que fica entre Marte e Júpiter) e de outros dois corpos celestes ou
ter este número reduzido para oito, sendo, pois, Plutão retirado da categoria “planeta”. Desde
o ano da descoberta de Plutão, os planetas integrantes do Sistema Solar eram, a partir do Sol:
Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Esta confusão a
respeito do número de planetas se deve ao fato de que a IAU (International Astronomical
Union) não tinha uma definição clara que pudesse ser utilizada para o termo planeta, que
significa astro errante, em grego. Esta definição clara foi necessária devido às novas
descobertas, fazendo com que a IAU na 26ª Assembléia Geral (IAU, 2006), finalizada em 24
de agosto de 2006, escrevesse uma resolução final para o termo planeta e outros corpos
celestes que orbitam ao redor de outros corpos em nosso Sistema Solar, definindo-os em três
categorias distintas:
1) Planeta é um corpo celeste que (a) está em órbita ao redor de uma estrela, (b) tem
massa suficiente para que a sua própria gravidade supere os forças de um corpo rígido
fazendo-o assumir um formato de equilíbrio hidrostático (aproximadamente redondo),
e (c) tem uma vizinhança livre de outros corpos ao redor de sua órbita. Com base
nestas definições, passaram a ser considerados planetas do nosso sistema solar:
Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Além destes
planetas, foram encontrados fora do nosso sistema solar mais de 100 planetas
orbitando ao redor de outras estrelas (NASA, 2007b). Plutão não tem uma vizinhança
livre de outros corpos ao redor de sua órbita, devido à grande excentricidade da
mesma, tornando-se, às vezes, Netuno dominante nesta.
2) Um “planeta anão” é um corpo celeste que (a) está em órbita ao redor do Sol, (b)
tem massa suficiente para que a sua própria gravidade submeta-o a tornar-se um corpo
rígido que assume um formato de equilíbrio hidrostático (aproximadamente redondo),
e (c) não tem uma vizinhança clara ao redor de sua órbita, e (d) não é um satélite.
Plutão é considerado um planeta anão2, por isso esta categoria pode ser chamada de
“Objetos Plutonianos”
3) Todos os outros objetos que orbitam ao redor do Sol, com exceção dos satélites,
devem ser referidos coletivamente como “Pequenos Corpos do Sistema Solar”. Isto
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inclui a maioria dos asteróides do Sistema Solar e dos Objetos Trans-Netunianos
(TNOs), cometas, e outros pequenos corpos.
Estas e outras mudanças têm sido freqüentes em diversas ciências3 e, tendo em vista
que o livro didático parece se constituir, para o professorado brasileiro, no principal veículo
de informação da matéria que leciona e compõe praticamente o único material impresso de
que muitos alunos brasileiros dispõem (Fundação IBGE, 1982). Assim sendo, o conteúdo
veiculado pelos livros didáticos parece ser um componente importante na análise da situação
do ensino em nosso país. De fato, um grande número de pesquisas nacionais tem se dedicado
a analisar o conteúdo desse material (LEITE & HOSOUME, 2005; OSTERMANN & RICCI,
2002; QUEIROZ et al., 2005). O mercado editorial brasileiro deverá dar uma resposta rápida
a essas novas mudanças, principalmente, se considerarmos que a análise dos livros didáticos,
organizada pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) do Ministério da Educação e
do Desporto, existe desde 2002, havendo uma nova listagem anualmente dos livros aprovados
pelo mesmo.
Figura 1: O novo Sistema Solar (Fonte: news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/5344892.stm. Acessado em 23/06/2007)
Os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN (Brasil, 1998) definem Ciência como
uma elaboração humana para a compreensão do mundo e sugere, como um dos conteúdos
centrais para o desenvolvimento de conceitos, procedimentos e atitudes, a busca e
organização de informações sobre cometas, planetas e satélites do sistema Solar e outros
corpos celestes para elaborar uma concepção de Universo.
Procurando verificar se o que é proposto pelo PCN é realmente cumprido nos livros
didáticos, foi realizada uma pesquisa que visou analisar os conteúdos relativos aos planetas do
sistema solar nos livros didáticos de ciências da quinta série do ensino fundamental, sendo
verificadas as definições e demais informações sobre os planetas do nosso Sistema Solar,
desde a sua formação, passando pelas explicações de vários povos e estudiosos no assunto, no
decorrer da humanidade até chegar ao que é aceito hoje em dia. Observações sobre as
representações gráficas existentes nos mesmos foram feitas, no intuito de comprovar se estão
pertinentes com a realidade, especialmente em termos de dimensões planetárias e distâncias
entre órbitas além de analisar os exercícios, atividades de fixação e de experimentação sobre o
assunto.
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A abordagem sobre os planetas em livros didáticos de Ciências de 5ª série
Foram analisados 23 livros didáticos de ciências da 5ª série, de coleções facilmente
encontradas em todo o país, e verificados os erros e acertos conceituais sobre os planetas e
sistema solar, de acordo com Verdet (1991), Oliveira Filho & Saraiva (2000), NASA (2007a),
Observatório Nacional (2007) e UFRGS (2007), observando aspectos experimentais,
exercícios e atividades de fixação, sempre verificando se os assuntos abordados estão em
conformidade com o que é proposto pelo PCN. Segue abaixo a tabela dos livros analisados
neste artigo, dispostos de forma aleatória, sem qualquer ordem de classificação.
Tabela 1: Livros de ciências de quinta série do ensino fundamental analisados
N° Livro Autor (es) Editora Edição Ano
Investigando a natureza –
JAKIEVICIUS, M. & HERMANSON,
1 Ciências para o ensino IBEP 1ª 2006
A. P.
fundamental
Ciências – Ensino MOURTHÉ JÚNIOR, C. A. &
2 IBEP 1ª 2006
fundamental MOURTHÉ, M. G.
Aprendendo com o cotidiano
3 CANTO, E. L. Moderna 2ª 2004
(Ciências)
O ambiente: Terra, a nossa
4 LEMBO, A. & MOISÉS, H. IBEP 1ª 2006
casa
5 Ciências e Interação COSTA, A. Positivo 1ª 2006
Construindo Consciências: Ação e Pesquisa em educação em
6 Scipione 1ª 2006
Ciências Ciências
7 Ciências CZAJKOWSKI, S. et al. IBEP 1ª 2006
Na teia da Ciência: o Planeta Base
8 THORMANN, Á. T. et al. 1ª 2006
Terra no Universo Editora
Ciências: entendendo a
9 natureza: o mundo em que CÉSAR S. Jr. et al. Saraiva 22ª 2006
vivemos
10 Ciências: O planeta Terra GEWANDSZNAJDER, F. Ática 3ª 2006
Editora do
11 Ciências BJ BIZZO, N. & JORDÃO, M. 1ª 2006
Brasil
Refor-
12 Ciências: o meio ambiente BARROS, C. & PAULINO, W. R. Ática 2006
mulada
Ciências e Educação
13 CRUZ, D. Ática 3ª 2005
Ambiental
14 Ciência e vida PAIVA ANDRADE, M. H et al. Dimensão 1ª 2006
15 Ciências: Terra e Universo VALLE, C. Positivo 2ª 2005
GONÇALVES, J. T. & OLIVEIRA, M.
16 Ciências IBEP 2ª 2006
T.
GOWDAK, D. & MARTINS, E. 2ª re-
17 Ciências: novo pensar FTD 2006
novada
Vivendo Ciências: nova
18 SANTOS, M. T. & LUZ, M. FTD 2ª 2006
edição
19 Ciências naturais no dia-a-dia ALVARENGA, J. P. et al. Positivo 2ª 2006
20 Ciências Naturais SANTANA, O. & FONSECA, A. Saraiva 2ª 2006
Escala
21 Link da Ciência: Ciências BERTOLOZZO, S. & MALUHY S. Educacion 2ª 2005
al
Ciências, Natureza &
22 cotidiano: criatividade, TRIVELLATO, J. et al. FTD 1ª 2006
pesquisa, conhecimento
23 Projeto Araribá: Ciências Editora Moderna Moderna 1ª 2006
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Quando formos nos referir aos livros desta tabela, o faremos utilizando a numeração
do mesmo nela.
Resultados e Análises
O primeiro aspecto investigado nos livros analisados foi se eles tratavam sobre os
planetas. Mesmo com o PCN (Brasil, 1998) recomendando a busca de informações sobre
planetas e satélites do sistema solar para que se pudesse elaborar uma concepção sobre o
Universo, cinco livros não citaram nada sobre os planetas, comentando somente um pouco
sobre o planeta Terra4.
Figura 2: Sistema solar tradicional (Fonte: http://www.planetario.ufrgs.br/. Acessado em 29/04/2007)
Utilizaremos na nossa análise apenas os livros que expõem assuntos relativos aos
planetas. Estes, em sua maioria (72,2%) fazem esta exposição no início do livro didático,
estando, pois, os assuntos relacionados aos planetas no final do livro didático de pouco mais
de um quarto dos livros (27,8%)5. Destaque para os livros 10, 13, 14, 15, 21 e 23 que
comentam sobre a possível mudança no número de planetas do nosso Sistema Solar (fato que
ocorreu em agosto de 2006), mostrando a preocupação dos seus respectivos autores em
manterem-se atualizados e, por conseguinte, atualizar os seus leitores.
Observando as representações gráficas contidas nos livros, foi observado que os
livros que apresentam um esquema representativo sobre o sistema solar, apresentam-no
conforme representado na Figura 2 (na maioria das vezes sem asteróides ou satélites) e
explicitam que as representações estão fora de escala em relação aos tamanhos dos planetas e
às suas distâncias ao Sol6. Como a maior parte destas representações não incluía satélites
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naturais, nem cinturão de asteróides, nem demais astros além dos planetas e do Sol, também
foram verificadas as definições sobre o sistema solar, conforme descrito no Dicionário de
Astronomia (Observatório Nacional, 2007), que define o Sistema Solar como “sistema
gravitacional composto pelo Sol e a coleção de corpos celestes que estão em órbita em torno
dele”, o que inclui, além do Sol e planetas, os seus satélites, asteróides, cometas etc. Tendo
em vista esta definição, dos livros que abordam o sistema solar nos seus conteúdos 66,6%
definem corretamente7, 16,7% definem como formado pelo Sol e os planetas8 e 16,7% nada
definem, porém, pelos seus esquemas representativos chega-se a conclusão, por inferência9,
que o sistema solar é formado apenas pelo Sol e os planetas.
Dos livros que falam sobre os planetas, aproximadamente 44,4% comentam sobre a
evolução das teorias sobre o comportamento do Universo (teorias geocêntrica e
heliocêntrica)10, mostrando o avanço no pensamento do homem e o papel importantíssimo da
observação, visando valorizar o conhecimento dos povos antigos para explicar os fenômenos
celestes, de acordo com o PCN (Brasil, 1998). Merecem destaque os livros 12, 19 e 21, pela
grande contribuição histórica que deu ao assunto, aprofundando-se nos gregos, mostrando o
quanto o Clero influenciava na ciência, comentando sobre Giordano Bruno, que morreu
defendendo que a Terra não era o centro do Universo, e Galileu, que foi condenado à prisão
pelo mesmo motivo, sendo perdoado só na década de 1990, pelo então Papa João Paulo II.
Este item é importante pois demonstra bem a importância e eficiência da utilização do método
científico em relação a métodos que se baseiam na fé ou em crenças, além de demonstrar o
quanto o fanatismo religioso pode ser prejudicial aos avanços da ciência.
Cerca de 55,6% dos livros que abordam a temática sistema Solar/Planetas,
abordaram questões sobre a origem do Universo (Big Bang) e/ou formação do sistema Solar
(nuvem de gás e poeira) como uma explicação para entendermos melhor de onde viemos11. O
livro 7 apresenta atividades que exigem pesquisa sobre a origem do universo segundo os
gregos, os índios brasileiros, maias e astecas, comentando também sobre babilônios,
sumérios, egípcios e chineses. O livro 8, além do Big Bang também fala sobre a teoria do
Universo Estacionário ou da criação contínua, além da teoria do Universo Oscilante (depois
de uma explosão, haverá uma imensa contração, o Big Crunch, isto alternando, ora Big Bang,
ora Big Crunch).
Aproximadamente 72,2% dos livros com conteúdos sobre os planetas apresentam
características dos mesmos, tais como distâncias médias dos planetas ao Sol, período de
revolução em torno do seu próprio eixo (rotação), período de revolução ao redor do Sol
(translação), números de satélites orbitando ao redor de cada planeta, origem do nome etc.
Todos classificam os planetas em internos (ou telúricos, semelhantes à Terra) ou externos (ou
jovianos, semelhante a Júpiter). Dos livros que apresentam características sobre os planetas,
30,8% o fazem em tabelas12, 53,8% apresentam estas características em texto corrido13 e os
15,4 % restantes o fazem das duas formas14. Todos os livros que apresentam dados sobre os
satélites naturais dos diversos planetas do sistema solar15 já se encontram desatualizados, por
exemplo, o livro 23, que mesmo utilizando dados de 2005 da NASA, está desatualizado,
devido às recentes descobertas dos telescópios, satélites e sondas que observaram estes
planetas (NASA, 2007b). Merecem destaque os livros 10, 12, 13, 14, 16, 22 e 23, pois, ao
falar sobre Vênus, além de comentar que é a conhecida estrela d’Alva, ainda comentam sobre
a sua atmosfera, que é rica em gás carbônico, o que faz que a sua temperatura seja mais
elevada que a de Mercúrio16, o qual é milhões de quilômetros mais próximo do Sol, devido ao
efeito estufa. Esta observação é muito pertinente, pois o aluno pode perceber que a emissão de
gás carbônico, um dos resultados de uma combustão, pode ser prejudicial se este gás for
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acumulando-se na atmosfera, tendo se tornado um dos principais responsáveis pelo
aquecimento global, aqui na Terra.
Dos livros que contemplam assuntos que dizem respeito aos planetas, 50,0%
apresentam atividades práticas para facilitar o entendimento dos alunos especialmente sobre a
diferença entre os tamanhos dos planetas e/ou as suas distâncias relativas ao Sol. Destes
livros, 66,7% apresentam atividades práticas para comparar o tamanho dos planetas do
sistema Solar e do Sol, para isto, utilizam materiais simples como frutas e sementes ou
círculos de papel confeccionados pelos alunos17, 11,1% apresentam uma atividade para
demonstrar a distância entre os planetas, convertendo os valores da tabela das distâncias
destes ao Sol em centímetros18, facilitando um pouco a visualização sobre o tamanho do
sistema Solar, e 22,2% apresentam atividades que trabalham com as distâncias entre os astros
(planetas e Sol) e seus diâmetros respectivos19, o que torna evidente o fato dos planetas serem
de dimensões desprezíveis se comparados às dimensões do Universo, mostrando,
especialmente, a pequenez do nosso planeta Terra.
OBS: Destaque para os livros 7 e 23, que estão presentes em todas as categorizações (exceto a
de não falar sobre os planetas) da análise, especialmente o livro 23, que ainda mostra-se
atualizado, com dados bem recentes em relação à data de sua edição e comenta sobre a
possibilidade de mudança no nosso sistema solar, com a inserção ou retirada de planetas do
mesmo.
Conclusão
De uma forma geral, de acordo com a análise que fizemos, os livros didáticos de
ciências de quinta série do ensino fundamental (sexto ano) ainda não estão cumprindo o que é
pedido nos PCN na íntegra. Diversos assuntos relativos a planetas ou Sistema Solar quando
são tratados, muitas vezes são tratados com superficialidade e com grande imprecisão.
A Astronomia é uma ciência bastante viva, estando em constante modificação, tendo
em vista o enorme avanço tecnológico que ela tem conseguido ao longo dos anos. Segundo
Mourão (1991, p.7):
“A verdade da história da ciência que procura compreender o universo é, na realidade,
uma tentativa humana de entender o complexo universo indecifrável da mente
humana. Por este motivo, nenhum estudo do desenvolvimento de qualquer outra
ciência, através do tempo, é tão importante como o da astronomia.”
As atividades práticas para comparar os tamanhos dos planetas e do Sol e as suas
respectivas distâncias são muito úteis, pois, estes dados bem como as condições naturais
(solo, atmosfera, ausência de água, duração do dia e do ano, temperaturas etc) de outros
planetas e satélites naturais são de grande valia aos alunos, pois mostram que o nosso planeta
é muito pequeno em relação ao Universo que o contém, além de deixar muito claro que os
outros planetas ou satélites não têm condições de ter vida, criando nos alunos um maior senso
de responsabilidade em relação ao planeta Terra, formando alunos mais zelosos com o nosso
planeta, o qual vem sendo destruído pelo espírito ambicioso do homem.
Por isto, é tão importante que os livros didáticos comentem bem sobre a Astronomia,
mais especificamente sobre os planetas, de forma a fazer com que os alunos entendam melhor
o nosso próprio planeta e como os pensamentos do homem foram amadurecendo em relação
ao mesmo, além de, muitas vezes, este livro ser o único material disponível ao docente.
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Experiências em Ensino de Ciências – V2(2), pp. 01-10, 2007
Esperamos que as observações aqui contidas possam ser apreciadas de forma a ser
dada uma maior ênfase nos assuntos sobre os planetas, pois o conhecimento sobre eles
mostra-se bastante válido para que nós possamos conhecer melhor a nós mesmos e as
limitações do nosso planeta e da vida, de uma forma geral, fazendo-nos cuidar de uma
maneira mais eficaz do nosso próprio planeta, assim, preservando a natureza e a qualidade de
vida.
Agradecimentos
Ao Prof. Dr. Antônio Carlos Pavão, diretor do Museu de Ciências Espaço Ciência, por
ter emprestado os livros que foram analisados neste artigo e ao Prof. Adiel Alves Rodrigues
pela leitura crítica e sugestões de correções.
Notas do autor
[1] – Este termo “errante” é devido à órbita em forma de epiciclos que estes corpos celestes
descreviam ao redor da Terra, de acordo com a teoria de Ptolomeu, de que a Terra era o
centro do Universo. Para maiores informações sobre isto consultar Verdet (1991), Oliveira
Filho & Saraiva (2000) e Rocha (2002).
[2] – Existem três planetas anões em nosso Sistema Solar: Plutão, Ceres (que está no Cinturão
de asteróides entre Marte e Júpiter) e Éris (que fica além de Plutão), que é considerado o
maior planeta anão do nosso Sistema Solar (Brown & Schaller, 2007).
[3] – Um exemplo claro destas mudanças freqüentes nas ciências é o fato de que, ainda nas
décadas de 1980 e 1990 eram considerados como reinos, pela Biologia, os reinos animal,
vegetal e mineral. Hoje, esta classificação está bem diferente: Annimalia, Plantae, Fungi,
Protista e Monera.
[4] – Os livros analisados que nada falam sobre os planetas são os livros 1, 2, 3, 5 e 6. A partir
deste ponto, estes livros não serão mais mencionados, ficando, para o restante da análise, 18
livros.
[5] – Os livros 4, 7, 8, 9, 11, 14, 15, 17, 18, 19, 20, 21 e 23 abordam os planetas e o sistema
Solar no seu início, enquanto os livros 10, 12, 13, 16 e 22, no seu final.
[6] – Os livros que apresentam este tipo de representação e observação são os livros 7, 8, 9,
10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22 e 23.
[7] – Definem corretamente os livros 7, 8, 11, 12, 13, 14, 16, 18, 19, 21, 22 e 23
[8] – Definem erroneamente os livros 4, 9 e 17. O conjunto do Sol e dos planetas que giram
ao seu redor não é sistema Solar, e sim sistema Planetário.
[9] – Nada definem os livros 10, 15 e 20.
[10] – Os livros 7, 12, 15, 19, 20, 21, 22 e 23 apresentam estas observações.
[11] – Os livros que comentam sobre a origem do Universo e/ou do sistema Solar são 4, 7, 8,
10, 12, 14, 16, 18, 19, 23.
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Experiências em Ensino de Ciências – V2(2), pp. 01-10, 2007
[12] – Os livros 7, 8, 20 e 21 fazem desta forma.
[13] – Os livros 12, 13, 14, 16, 18, 22 e 23 apresentam as características em forma de texto
corrido.
[14] – Somente os livros 10 e 17 apresentam as características utilizando as tabelas e os textos
corridos.
[15] – Os livros que comentam sobre os satélites naturais dos planetas são 8, 10,12, 13, 14,
16, 17, 18 e 23.
[16] – A temperatura média na superfície de Mercúrio é de cerca de 170ºC e de Vênus, que
está a mais de 50 milhões de quilômetros mais distante do Sol que Mercúrio, é de cerca de
464ºC, segundo dados do Observatório Nacional (2007).
[17] – Os livros 8, 9, 16, 18, 19 e 21 apresentam atividades para comparar o tamanho dos
astros.
[18] – O livro 23 apresenta atividade para comparar a distância entre os astros.
[19] – Os livros 7 e 20 apresentam atividades para comparar os diâmetros dos astros e suas
respectivas distâncias.
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